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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Cidade Sagrada


K.  não nos olhava de frente. Nunca, nem mesmo quando percebeu que era um dos eleitos da véspera do dia da república, entre dezenas de bicicletas na mão, rostos encardidos da vida e carregados pelo peso de toda uma cidade que os empurra e lhes apita.
Nunca saberemos quantas horas ou quantos dias, precisará K.  para ganhar outra corrida de ciclo riquexó, dois quilómetros e meio até ao Ganges e voltar, cem rupias de gorjeta garantida e, quem sabe, mais cem pelo esforço e pela ostentação da miséria humana e da precariedade da sua existência.
Há muito que a anestesia do movimento frenético se apoderara da nossa auréola imperial.
(A auréola imperial é uma representação artística de quem exerce o poder por instruções divinas, ou outras)
No nosso caso, outras!
Mas quando K. (por simplificação grosseira e por dignidade mínima) pegou numa criança de colo e a poisou no quadro dianteiro deste ciclo riquexo encardido e cansado, e o lançou para o trânsito, seguro a si próprio no volante, entre os travões e a campainha, rodeado de um abraço impotente e de pézinhos pousados no travão da frente, voltei a sentir as dores do pós-operatório.
Tinha um blusão de pelo verde e um gorro vermelho.


Sem rosto, sem sinais de infância, o miúdo não tinha mais de dois anos.
Ser a cidade sagrada para os hindus e a capital de Shiva , ser um dos quatro locais sagrados do budismo, viver nas margens do mais sagrado de todos os sete rios sagrados, não lhe concede qualquer estado de graça que permita a Benaris prostrar-se em estado permanente de reflexão diante das águas do rio e os templos recolhidos na cidade velha.
Regressámos ao rio, pisando os espaços vazios que sabíamos não ser nossos, que se disputavam ao segundo e que fluíam como um rio que corre para o mar imenso em dia de monções.
Parar não é possível, como as velas que lançámos ao Ganges, que um miúdo de sete ou oito anos nos vendia por dez rupias, enquanto saltava de barco para barco, fosse ao nascer ou ao por do sol, com aquela expressão de pequeno homem que se constrói sozinho, à sombra do rio.
E ninguém estranhava que o ser – que os hindus ainda consideram não ter atingido a maturidade – de blusão verde e gorro encarnado, enfrentasse o polícia de trânsito, que se encurralava num entroncamento improvisado e, de bastão no pulso, concedia uns pequenos privilégios de prioridade a quem mais – e mais longe – se atrevesse.
E o pai atrevia-se, lutava com os dois pés contra as falhas de asfalto, que derrapavam a bicicleta e o atrasavam do fim do trajeto.
E o ser imaturo era a sua bandeira, provavelmente o seu Deus, mas não era a sua proteção pois os mortais não lhe concediam tréguas, não fosse o pai o elo mais lento e menos protegido desta torrente de gente, de vida e de som, sem conflitos e num caos tão sereno quanto a espiritualidade do rio.
Afinal de contas, isto não é uma guerra, é apenas a vida das pessoas.
Mesmo quando a cidade venera Shiva, o Deus da destruição, é em Vishnu que a cidade se inspira.
Mesmo que a cidade viva do rio.
E, junto ao rio, antes da manhã acordar a vida terrena, a crença é intensa, os homens mergulham no rio com uma fé compulsiva, as mulheres avançam rio dentro com longos e coloridos vestidos e os remadores bebem pequenos goles de água sagrada, enquanto largam os remos na certeza que a corrente não levará os turistas para o mar.


O rio laranja inunda os gaths mas, naquele momento que precede o nascer do sol, suspendem-se as correntes, ignoram-se as ondas e suspendem-se os ruídos da cidade.
Só quando se acendem as piras, renasce Shiva e a surpresa de que afinal o Ganges é o rio da morte ou, se a crença for imensa, da libertação da alma.
E vistos do rio, os dez funerais desta noite, acesos em fogueiras que queimam lentamente a materialidade do Homem, transformaram o gath num apocalíptico agora.
Entre o místico e o surreal, lançámos as nossas velas ao rio, entregámos a alma a Brahma e perdemos a auréola imperial.
E o pequeno não caiu nem chorou e não lhe vimos os olhos, nem no beco esconso onde se acotovelavam os colegas de profissão do pai que procuravam lembrar-lhe – efémero, é verdade - da sua infância, nem perante o desfile das desgraças humanas que se arrastavam pelas bermas, noite dentro de regresso do rio sagrado.
Só no final da viagem, depois de enfrentarmos de frente um comboio de luzes que apitavam e avançavam direito a nós a um ritmo de enxurrada, se descobriu o gorro.
Sem expressão.
Nem do pai diante das rupias, nem do filho perante as demasiado precoces provas de vida.
Indiferente ao peso do nascimento pelo destino, o asfalto continuava a trepidar de luzes e sons, sem direção nem velocidade definidas.

E enquanto o rio adormecia, as mesquitas chamavam os fiéis muçulmanos para a oração das sete da noite.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A Super Delhi


Dezassete milhões de habitantes é um sopro que, naquela madrugada,  não conseguiu afastar um nevoeiro branco que nos recebeu no aeroporto Indira Ghandi.
Branco que até parecia uma manhã precoce, arrancada da noite gélida e do fumo dos escapes dos autocarros, que circulavam ocasionalmente sem faixa definida.
E o nevoeiro branco só se desvaneceu à entrada da cidade imperial das avenidas largas, dos quarteirões desertos de habitações, onde apenas se vislumbravam árvores, embaixadas, vedações e luzes esparsas.
E pequenos grupos de intocáveis que vagueavam à roda de fogueiras semi-acesas, embrulhados em cobertores velhos e vergonha.
Mas dentro das portas Sul da cidade não havia vestígios da metrópole, as avenidas estavam pejadas de barreiras da polícia, militares dispersos por sacos de areia empilhados nas esquinas, quilómetros de avenidas, julguei por instantes ter aterrado num golpe militar e depois lembrei-me que a India tinha uma génese diferente, e o nosso autocarro sossegava-nos com um sorriso e um sotaque acentuado, estamos a preparar a parada do dia da república, no dia 26 de Janeiro e, como temos convidados especiais, sabem, vem cá o presidente francês, segurança especial, a porta da Índia não se pode visitar.
Mais tarde, quando calcorreava a Janpath em passeio matinal de domingo, constataria que eles tinham razão, parada é coisa séria que se ensaia com antecedência, com salvas verdadeiras e a hierarquia militar de sentinela com seus fatos de gala e poses altivas.
Da noite para o dia, chegámos mesmo a acreditar que havia nestes preparativos fortes reminiscências imperiais, junto ao quilómetro zero da república Indiana.
“Why not?” – respondeu-me o pretenso mais graduado oficial, quando lhe pedi autorização para furar em dois metros e meio a zona de segurança e guardar o porta da índia para a posteridade.
E balançou a cabeça negativamente em sinal de absoluta  concordância.
E ele nem se esforçou em explicar que aquela porta era agora a entrada para uma nova Índia, independente e próspera. 




domingo, 17 de janeiro de 2016

A cruz gamada



No templo hindu, de pés descalços e mosaicos frios de uma Delhi revestida por um manto de nevoeiro, a história de todas as religiões havia de nos ser contada por um Sikh de turbante vermelho e barriga balofa, pernas de pato e muito dado ao senso comum.
Começou por afiançar-nos que ninguém conhece nenhuma religião, porque esta – todas elas – é um mar.
E enquanto os nossos pés enregelavam, e nós pouco mais éramos capazes de interpretar a não ser o famoso Shiva, o Sikh assegurava-nos que havia pelo menos um milhão de Deuses Hindus e que o mar deles era ainda maior que o dos outros.
E continuávamos a perguntar a nós próprios porque é que não nos explicava o significado da cruz gamada, o único elemento gráfico que se sobrepunha aos Deuses da Criação, do Desenvolvimento e da Morte.
No fundo, o ciclo da vida. E o Deus da Morte apenas garante que todos nós criamos espaço para que outros nasçam.
E o Sikh depressa se entusiasmou com a sua ideia súbita de que a religião era uma invenção dos homens e que noventa por cento dos crentes apenas acreditava por temor do castigo.
Enquanto as correntes de ar percorriam os alpendres deste templo aberto eu relembrava-me do significado da cruz gamada sinistrógica, a original em que cada um dos cantos significava o mundo dos Deuses, o mundo dos homens, o mundo dos animais e o mundo inferior.
Isto apesar de um Hinduista não necessitar de ser sequer crente.
Mas o Sikh simplificou a História com a ideia de mar, apenas omitindo o facto de que o mar, apesar de grande, é finito.
E conduziu-nos a Shiva – seria o Kali? - , julgo que referindo ao Deus da morte, afinal de contas, a mãe de todas as batalhas.
E enquanto me perguntava de quantos Deuses se faz um tempo e contava pelo menos cinco, alguém me lembrava que, para estas religiões a cruz gamada invertida trás infelicidade, evoca forças obscuras e surge normalmente associada a práticas de feitiçaria.
Os tristemente célebres barretes negros, que ousaram inverter a cruz, tinham aprendido técnicas de magia tântrica e de xamanismo com uma ordem de monges tibetanos e despertaram as trevas no Ocidente.
No fundo o Sikh até tinha razão: os homens são uma espécie muito perigosa.
E enquanto ele se atrapalhava com a utilidade do KamaSutra ( e explicava que Kama era um Deus e não uma cama), aprendia perplexo que o conceito de virgem mãe não é um mito ou uma utopia, mas uma verdade científica.
Obviamente que ninguém lhe explicou que o conceito cientifico de virgem mãe implicava alguma espécie de contacto físico e uma complexa história de um espermatozóide endiabrado.
À saída do templo, havia vendedores de postais, bandeiras, óculos de sol e selos da república.
E eu expliquei-lhes que o Hinduísmo era um mar.
E eles riram-se, dentes muitos brancos numa pele muito escura!