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quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

Retalhos de uma vida em 3D



Gostava de poder escrever sem sinais. Mas não posso.
Acto 1, nevoeiro no dia da partida (dele), bravo Sebastião
Acto 2, os homens que se julgam deuses, com maiúsculas pequenas
Acto 3, navegar à vista
Acto 4, profissões do futuro, uma visão 3 D(o) desenvolvimento organizacional
Acto 5, apenas mais um dia de chuva no almejado retiro do bom selvagem
Acto 6, a sentir-me uma peça de museu da era pré glaciar
Acto 7, o sonho da libertação da água desemboca na urbe caótica
Acto 8, uma vida a acreditar nos símbolos


Para a semana há mais!









quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

(Parte 3, e última) Bem-vindo ao mundo louco do baixo custo – O regresso

… Ou o que faz um Homem para tentar poupar os remanescentes setenta e cinco euros!



Liverpool Street, duas e cinquenta da tarde
Enamoro-me pela velhinha que me chama darling, uma cabeça de alfinete bem descoberta no lado de lá da fronteira do guichet, que me trata por querido e me devolve dinheiro não gasto no cartão de transportes que, por acaso, se chama ostra, e fico-me a perguntar porquê.
Mas não de forma obsessiva, porque a avozinha que me continua a tratar por querido, também é cliente do banco do meu cartão e sugere-me trocar de contas enquanto me descansa, soltando uma gargalhada que ecoa no túnel, escadas rolantes abaixo, do metropolitano da babilónia central.
Sim, querido nós devolvemos-te o dinheiro, nove libras certinhas vezes dois, para o teu, para o nosso banco, quarenta e oito horas, e assina aí, duas vezes, dois papéis, e não é preciso a morada, basta o país, que é para lá que voa a caução que pagaste e as libras que carregaste, um troco certinho, um exemplo que devia envergonhar os abusadores da EMEL.
Mas isso, penso eu.
Liverpool Street, três da tarde.
Assusto-me com o bigode de meia-idade que me espreita do guichet, o outro guichet, acima do chão, no fundo da gare de comboios, arte nova e a babilónia que vem à superfície.
Vinte e três libras de bilhete de comboio, para o aeroporto, se faz favor!
Todos os dez minutos, quarenta e cinco de viagem, argumentos adequados, se o meu susto fosse da espera ou da demora.
Trinta euros, de Londres à Azambuja das ilhas britânicas, porque tínhamos vindo de Abrantes e pago apenas vinte.
Antes de partir para Stanstead já só faltavam gastar quarenta e cinco euros, para que a indiferença me deixasse refém dos argumentos de que as novas experiências enriquecem.
Sim, mas este Expresso de Stanstead era a montanha intrometida no vale do baixo custo: tecnologia, silêncio, uma casa de banho aerospacial, nada que me fizesse lembrar que o meu destino era uma aerogare, tão longe que seria provavelmente capaz de servir os escoceses, antes da independência, bem entendido!
No grande armazém da Azambuja – este entreposto rodeado de animais de focinho descontraído - renasce das cinzas um formigueiro de gente, que não se entende de onde chegou.
A tese escocesa perde força à medida que o burburinho da multidão se torna percetível.
Mas não foi do comboio vazio que vinha de Liverpool Street, mais propriamente em Londres.
Não fosse o litro de cerveja já almoçado e teria certamente reparado que, outra vez, tinham transformado um hangar num terminal entupido de bifes que se rebolavam pelos corredores sem teto – porque o hangar era sempre o mesmo, por mais curvas e lojas francas que torneássemos – em direção aos paraísos baratos do sul da Europa, do sul do mundo.
Em vez disso, corri apressado e apertado para o mictório mais próximo, bem no centro do hangar, quase sem teto.
Aliviado, então voltei a ligar-me à experiência dos animais de focinho contraído, encaminhados obedientemente entre corredores sem teto, portanto currais.
Portanto, como gado!
Stanstead, o império azul e amarelo da harpa amarela sobre a cauda azul, onde o low cost se confunde com o charter, em que o estacionamento das naves é tão anárquico que incomoda pelo contraste.
Com tanto pasto lá fora, tanto aperto aqui dentro.
Por isso reforçámos a dose de cerveja, sempre a cinco libras a meia centena de centilitros, e se fizéssemos contas à cerveja sorvida, para mais fácil ultrapassar as agruras de um homem que já se habituou a gostar de mimos, a experiência já me estava a custar dinheiro, mas este bar era diferente, até tinha amendoins que arredondaram as contas e enganaram-me o estômago.
É que na volta não me iam enganar com a história do cartaz com a sandes e a cerveja com o gelo a escorrer pela fotografia.
Mas os amendoins provocaram danos colaterais. Por esquecimento ou por confiança – ou talvez apenas pela cerveja – fomos ficando para o fim, porque afinal de contas o avião não parte mais cedo para os que embarcam primeiro e, vantagem do check-in precoce, ninguém se iria sentar no nosso lugar marcado.
Tal como no primeiro, devíamos ter percebido que mais importante do que medir as malas é correr lesto e chegar primeiro.
Mas não percebemos!
E lá foram os nossos pertences para o porão e nós que tínhamos medido as malas e havia seres que, somente porque denotam um espírito de sobrevivência mais apurado, embarcaram malas que pareciam tapetes voadores assentes em blocos de argamassa.
E a brigada de moças vestidas de azul e amarelo, menos rechonchudas que as outras, mais sardentas e sorridentes, receberam-nos de sotaque em punho, sem dramas porque tinham o porão, e pelos pecados duns pagam outros, melhor assim do que obrigarem as moças de saia curta a pendurarem-se nas bagageiras, de cuequinha à mostra e gáudio da multidão.
Mas as pequenas trabalhadoras não descansaram em todo o voo, porque estes anjos de harpa amarela, menos fortes no marketing visual, trocaram o orçamento em artes visuais por uma força de vendas direta, que se bateu de forma heroica nas marchas incessantes pelos corredores fora.
Felizmente, e ao contrário da odisseia laranja, eu tinha escapado a uma coxia, e aos permanentes embates laterais com a coxa esquerda – e respetiva nádega – da chefe de cabine.
Mas o altifalante ainda se ouviu em terra, os passageiros em falta, que tinham nome e tudo, queiram fazer o favor de se acusar, porque falharam no controlo do embarque.
Como se um ausente, se pudesse acusar de coisa alguma. Mas o apelo resultou, porque ninguém apareceu e lá se perderam três transeuntes de check-in feito, com aquela antecedência necessária para se conseguir o desconto perfeito.
E o avião partiu.
E a azáfama despertou entre o pessoal da venda direta.
Uma azáfama bizarra, reconheço, porque elas mexem-se tanto que o amarelo e o azul começam a misturar-se e, a dado momento, deixamos de perceber se é a saia que é amarela se a blusa que é azul, se afinal de contas não estão todas vestidas de verde.
Primeiro, as bebidas frias
Depois, as sandes quentes
E o público, sem mexer a cabecinha, para não ser contemplado por uma venda forçada pelo sorrisinho sardento das moças.
Hirtos e firmes.
Depois, as bebidas quentes.
Porque o sucesso não era grande, ousaram uma estratégia que roça a venda agressiva, puxada ao sentimento.
Pede-se aos senhores passageiros que contribuam para uma obscura instituição de beneficência – primeiro em inglês, depois com uma perfeita tradução para português.
Perante a falta de entusiamo geral, de novo um solene anúncio de que afinal, podiam ganhar um automóvel e algumas viagens na esvoaçante harpa amarela, procurando escoar as raspadinhas, apelando ao lado mais ganancioso do público-alvo.
Nem assim as filas do lado direito viraram a cabeça, com receio de serem apanhados na armadilha.
E, por fim, já península ibérica adentro, a famosa carripana dos produtos livres de impostos que, por forretice extrema, nem sequer tinham direito a aparecer na inexistente revista de bordo.
Quando já todos acreditávamos que o pesadelo tinha terminado, com os cheiros da nossa pequena nação a emergir entre as nuvens, novo anúncio solene a informar que as casa de banho iriam encerrar ao público, meia hora antes da aterragem, porque tempo é dinheiro e as moças de farda amarela e azul se preparavam as pequenas limpezas, certamente porque no ar não se paga parqueamento, nem horas extraordinárias nem horas de trabalho temporário de outras moças, igualmente fardadas de amarelo e azul, mas com umas letras nas costas.
Bravas e valentes moças, que fazem por merecer o privilégio de passar o dia a andar de avião.
E nós contentes, porque poupámos duas ou três dezenas de euros e ainda tivemos acesso a esta invulgar experiência…
… não tivesse sido quebrada a promessa de ter as malas à porta do avião, única razão pela qual as tínhamos largado na aerogare da harpa amarela.
Queixem-se, sugeriu o bagageiro português, encolhendo os ombros e cofiando o bigode desgrenhado, num que se lixe tão prazenteiro que nos tirou o gozo de uma reclamação escrita.


P.S. E a mala apareceu no tapete, tão desgrenhada quanto o bagageiro, mas sem danos de maior!


domingo, 14 de Setembro de 2014

( Parte 2) Bem-vindo ao mundo louco do baixo custo – O embarque

… Ou o que faz um Homem para tentar poupar os remanescentes cem euros!


Ah! Ainda bem que medimos as malas porque na porta de embarque estão uns apetrechos medidores de malas, para garantir que a lei se cumpre.
Mas os apetrechos vivem numa solidão profunda, apesar dos esforços do segurança em regime de trabalho temporário insistir em pontapeá-los distraidamente – um temporário não pode ser ostensivo nem autoritário – para os meio dos pés dos transeuntes que, aos saltinhos e olhando distraidamente para os tetos de zinco do terminal dois, congeminavam conversas que os mantivessem ocupados e pretensamente distraídos.
E ninguém tenta lá enfiar as malas e centenas de jovens e mais velhos contornam o apetrecho com caixotes que parecem montanhas.
Atravessámos a pista a pé (já se passeia a pé no aeroporto de Lisboa) ultrapassámos umas velhas tão corcundas quanto as malas que as puxavam e saltámos para a traseira do laranja sem pudor, porque aqui os lugares são marcado mas as malas não.
Ops. Chegámos mesmo a tempo de enfiar as nossas modelos viajantes no último cantinho disponível
Devíamos ter percebido que mais importante do que medir as malas é correr lesto e chegar primeiro.
Mas não percebemos!
Depois vem a inglesinha rechonchuda – como todas as insulares aliás – enfiada numa farda demasiado apertada e colorida, e as faces da pequena começam a corar, de embaraço, de desconforto, ira, tudo isto numa sequência de tom que quase destruía a reputação da fleuma britânica.
As miúdas stressam mesmo nesta fase de arrumações, de tal forma que já não me lembro se o salva vidas que exibiram ao alto, tão em simultâneo com a discussão em tons de ameaça e absoluta necessidade de não perder o lugar no corredor aéreo, era para nós ou para ela!
E partimos nos laranjas. Os laranjas são bons. Furam as nuvens sempre numa linha direita que empena de solavancos, em estado de hipnose diante dos apelos de consumo que exalam do banco da frente, perto, muito perto do nariz, porque em baixo as pernas encolhem-se e em cima a vista desfoca-se, de tão próximo, do apelo laranja ao consumo.
Uma sandes de aspeto que sabemos de antemão que não é real, até porque a cerveja, por detrás de um impossível copo de vidro – estamos no avião, certo? – jorrava partículas de gelo e uma espuma, tão perfeita que só podia ser mesmo, fotografia.
Os laranjas são bons: onze libras de perfeita ilusão.
Sabemos que o sabor da sandes ia ser deslavada, que o copo vai ser de plástico e a cerveja vai estar quente!
O melhor era mesmo um sumo de tomate. São só onze horas da manhã, o sumo de tomate disfarça melhor os equívocos de temperatura.
Nós temos a certeza que é mentira!
Mas aquele solavanco permanente e sincopado, o cartaz laranja a saltitar à frente dos meus olhos e a caravana laranja que se aproximava e as libras a tilintar destruiu a minha resistência à hipnose aeroespacial.
E no meio daquele ar imenso que é o céu azul em cima, os nimbos em baixo e a carcaça laranja a latejar, sucumbimos à ilusão.
A cerveja estava quente, a sandes tinha um sabor a molho inglês, o copo era de plástico, mas nós sorrimos com o desconto de uma libra por sermos dois!
E ainda não tínhamos abandonado a jangada de pedra e a poupança tornava-se perigosamente vã: estávamos a uns míseros oitenta e cinco euros de uma viagem normal.
Mas os laranjas confiavam no marketing e as rechonchudas já estavam mais felizes, pelo que, sobre o golfo da biscaia deixámos de as ver, a elas inglesas, rechonchudas e laranjas e às tentações de perdermos a nossa honra e de nos perdoarmos pela nossa teimosia.
Verde, vacas, hangares e pistas vazias foi o que vislumbrámos no regresso a terra, o que, sem GPS poderia significar a França do Norte, a Escócia do Sul, ou qualquer outro prado da Europa chuvosa.
Mas aterrámos na ilha, na verdade um pedaço inóspito de terra firme, em que o hangar principal aparentava origens mais nobres que o terminal de passageiros, uma térreo e plebeia barraca de zinco, tão cinzenta que se confundia com o céu, tão térreo quanto o porão das bagagens, talvez por isso mesmo Luton fosse tão térreo, talvez assim os passageiros não se atrevessem a trazer bagagem.
Uma hora e meia depois, vinte euros mais tarde, um autocarro com volante à direita uma revisor italiano, cinco minutos de viagem e mais uma gare no meio de nada, saídas da plataforma para os prados verdes, quinze minutos de espera e um comboio pontual, mais quarenta e cinco minutos de verde até imergirmos nos túneis da urbe, inconfundíveis vestígios da fuligem industrial, agora preservada como memória coletiva, e tivemos finalmente a certeza que tínhamos aterrado do lado certo do canal.
Às duas e meia sentíamos finalmente a babilónia do mundo a pulsar, entre a modernidade ostensiva do Shard e o classicismo enternecedor da Torre de Londres

A sessenta e cinco euros de distância de um viajante conformado.