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terça-feira, 29 de Julho de 2014

A vida efémera dos conquistadores



O general francês do exército de Napoleão, instala-se no seu cadeirão, em cima do torreão sul da muralha que circunda Trogir e reúne a sargentada para uma partida de cartas.
Não há piratas que cheguem perto e, enquanto não chegar o inverno na frente russa, a vida de um soldado no Adriático é azul.
Tão absorto no jogo, não se apercebeu qua a paisagem urbana, polvilhada de telhados vermelhos e de torres de igreja, era predominantemente de origem veneziana, alguns alçados medievais e nada, ou quase nada, das civilizações da antiguidade.
O general fazia a guerra, não era arquitecto ou artista mas, se entendesse alguma coisa de estilos de construção, ficaria certamente irritado com esta manifestação de ostentação de um povo que não se destacava pelos seus dotes militares.
Ou então, se percebesse que não chegava conquistar os lugares para lhe modificar a paisagem.
E o general tinha mau génio, tanto quanto a soberba vista que podia dali desfrutar.
O azar dos franceses é que, para serem donos de impérios exóticos, não podem destruir o que outros construíram, dado que o património do lugar é o que dá valor às conquistas.
E quando os italianos voltaram, aproveitando-se da desgraça dos outros, sentiram-se em casa.
Um Azar dos Croatas, que não se conseguiram conter, e estoiraram com um leão de pedra na Loggia Veneziana, na praça central de Trogir

1930 DC.



segunda-feira, 28 de Julho de 2014

O palácio do último Imperador



Split, a morada de Dioclesano, um dos últimos Imperadores da Roma Ocidental.
Filho de escravos, nascido em Salona, na Croácia Adriática, chegou a Roma através de grandes feitos militares
Visionário, foi o primeiro que se reformou em vida e planeou-a, construindo por antecipação o palácio em Split.
Sentado no seu palácio, viu de longe o Império a desmoronar-se, implodindo pelo seu interior e suicidou-se seis anos depois da sua reforma voluntária.
Depois da sua morte, da queda do Império do Ocidente e da invasão de Salona pelos eslavos bárbaros, os sobreviventes refugiaram-se nas muralhas de Split.
Quatro séculos depois, o seu palácio transformou-se em cidade
Hoje vive entre ruínas, o vibrante porto de mar e uma movida muito mediterrânica

E Salona, seis quilómetros pela encosta acima é um descampado sem glória que relembra Pompeia, um vulcão chamado eslavos.


domingo, 27 de Julho de 2014

Mostar - A cidade mártir



Bombardeada pelos Croatas em 93, Mostar é a prova de que não há inocentes na idiota guerra das Balcãs
Para além do pedaço de cidade reconstruída, pedra a pedra, pelas consciências pesadas das pombas europeias e do folclore do turismo multicultural, nada mais bate certo neste puzzle civilizacional.
Apesar de ter sido, e ter vivido, como fronteira dos impérios, durante séculos e, segundo rezam as crónicas, habituaram-se a viver em harmonia, igrejas e mesquitas, hoje, vinte anos depois da guerra as comunidades vivem vidas separadas, uma paz podre que se esconde por detrás do grande bazar que é a zona antiga da cidade, cheio de mercadoria sem origem definida, mas definitivamente oriental e com contornos turcos, a prova de que a cidade velha de Mostar não tem vida própria, nem comum.
À custa das contas públicas, pouco mas dispendioso Estado que, em Mostar, duplicou o seu aparelho para servir de forma distinta a comunidade muçulmana bósnia e católica croata.
Não se respira por isso naqueles becos de pedras bicudas e gastas, aquele clima de harmonia que a reconstrução da ponte pretendeu recriar.
As margens do rio estão pejadas de musculados mergulhadores profissionais que transformaram uma festa anual, num espectáculo que corre a todas as horas, haja no chapéu que passa de mão em mão, pelo menos sete euros, oferecidos por turistas que gostam de emoções fortes, protagonizadas por exóticos locais.
A margem norte do rio, enche-se de homens musculados de tronco nu que despejam cervejas na barraca de madeira que se debruça sobre a corrente que empurra o orgulho para o mar, para lá da fronteira com a vizinha Croácia.
Quando lhes perguntam – e um jovem jornalista americano perguntou, numa reportagem que não tem dois anos – qual a razão da guerra, eles não sabem, não respondem ou não querem saber.
O jovem muçulmano (seria muçulmano? Seriam os vendedores das lojas do bazar mesmo bósnios?) que controlava as entradas na (minúscula) mesquita principal incentivou a criança a subir ao minarete sem pagar e depois, estendendo a mão, colocou o dedo na boca e afirmou “não digam nada lá fora, menos quatro markas no preço, vale certamente duas markas de gorjeta”.
Achei pois que não valia a pena perguntar-lhe qual a razão da paz, pois ele talvez fosse incapaz de saber.
Mas nas vielas da margem norte, mais longe do bazar, rodeado por pequenos riachos, pontes de pedra e hotéis simples e familiares, senti que este local poderia (poderá?) ter sido (vir a ser) especial.
Se os balcânicos conseguirem superar esta geração sem se meterem em trabalhos.
Oiço um estrondo nas minhas costas e recuo assustado. Vinha do lado da ponte, mas afinal era apenas mais um musculado que se tinha lançado à água.

Sete euros depois!