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segunda-feira, 23 de março de 2015

Torremejia, a meia hora do faroeste


Finalmente a planície, até que enfim que as nuvens se tornam naquele cinzento esbranquiçado que transparece inocência.

Finalmente as nuvens inofensivas que aceleram o rolar no asfalto e entorpecem os reflexos.

É plana, é rural, uma perspetiva sem fim, apenas levemente emoldurada por montanhas que se confundem com os reflexos de uma claridade que cega, e que vem do céu, dos campos de cereais, dos silos amarelos, como que a querer perpetuar o Verão.

Se não fosse a planície, o Sol e a súbita vontade de dormir uma sesta, nunca Torremejia se intrometeria no meu mapa, no meu ângulo reto que me preparava para desenhar, ali para os lados de Mérida.

E, sem vontade de parar, tal era o entorpecimento pela luz da planície, entrei no deserto da vila, Domingo à tarde fora.

Na rua, na estrada, na N 630 ou na rua da estremadura, conforme fosse a nossa distância do estatuto de forasteiro, predominava a vivalma, que não era um estado de alma, mas uma realidade terrena.

Triste a solidão da Extremadura província.

Numa espécie de esplanada que disputava a berma poeirenta da estrada ou da rua com meia dúzia de automóveis igualmente poeirentos, sentavam-se os exemplares do vanguardismo da terra, a sua juventude portanto.
Eram quatro, pareciam igualmente distribuídos entre sexos, cabelos compridos, algumas com madeixas espetadas, talvez piercing no nariz. Talvez, não tenho a certeza. E fumavam, disso tenho a certeza.
Levantaram as cabeças e só saíram olhares de desdenho.
Dentro do café, a penumbra estendia-se da janela até ao balcão e os residentes tornavam-se mais velhos, mais curiosos mas igualmente pouco interessados. Afinal de contas, estava de passagem, era apenas um inseto nervoso a fugir da chuva que vinha de sul.
Por detrás do balcão esperava-me um barrigudo de meia-idade, de camisa branca e gravata vermelha, apertada com rigor e sem suor. Limpou o balcão de madeira com um pano mais escuro que a camisa e agarrou-se freneticamente à máquina do café. Sem grandes palavras. Apenas o suficiente. Também é assim que se quer um barman. Uma solenidade de quem sabe que não tem outro lugar senão aquele.
Nas paredes por detrás do bar, estava pendurada a história de Torremejia; uma telefonia de válvulas arrumada numa prateleira do lado direito do balcão, que partilhava com uns quantos despertadores e umas jarras de porcelana florida e gasta,
Atrás da grande máquina de café, um modelo clássico merecedor da estrada 66, penduravam-se utensílios da terra, jurei ver um arado, que vinha do teto até às chávenas de verdadeiro expresso, molduras com fotos de homens barbudos, algures nos inícios do século passado, gente solene, molduras muito pretas, formato que me despertou para as touradas, em versão de festa brava espanhola. Estremadura, portanto.
Do lado esquerdo do balcão, mais escuro, mais longe, mais sombrio e mais só, uma enorme máquina de escrever preta, teclas pretas e um enorme cilindro, insistia em dar um toque de modernidade ao lugar, enfim mais trinta anos que as molduras e os arados, muito mais antiga que a cromada máquina do café
O homem não tinha bigode, a casa de banho estava inundava entre o cheiro de lixívia, a tampa partida e água do autoclismo que não parava de cair e o secador que despejava ar frio.
No corredor de saída um casal, sim um homem e uma mulher de feições orientais – definitivamente chineses – arfavam concentradíssimos para uma slot machine eletrónica que lhes comia as moedas ininterruptamente, cada vez mais concentrados e tensos, como se não houvesse amanhã, e pareciam personagens de banda desenhada introduzidas por um qualquer realizador alternativo no centro de um filme a preto e branco em que os atores principais, nem sequer davam pela sua presença
Lancei uma moeda para cima do balcão e virei as costas, pontapeando a porta com a biqueira da bota direita.
No meio do asfalto, de pernas abertas e arma fora do coldre, disparei, soprei para a objetiva e montei-me, sem olhar, no meu automóvel, com a certeza que tinha atingido o alvo, e arranquei velozmente, pradaria fora, cobrindo de pó os rufias de Torremejia

THE END


sábado, 14 de março de 2015

Gran Via



É inevitável.
Sempre que subo a Gran Via, vindo do Callao começam a desfilar na minha memória, lembranças adolescentes dos passeios em família a Madrid.
Inevitável porque era o acontecimento da nossa adolescência, o passeio de carnaval de automóveis em fila (eram pelo menos dois automóveis), saída de madrugada, o pequeno-almoço em Montemor que servia de reunião de família, os primos todos, o tio que conduzia pelo meio da estrada, antes e depois da fronteira, a longa fila de fronteira, para cá de Badajoz, formulários à saída, algum desplante espanhol à entrada, as casinhas alentejanas, tão brancas quanto postos de fronteira do lado cá, edifícios de vidros espelhados na Espanha em busca da modernidade, o almoço na pousada de Oropesa, o cheiro a deserto europeu na longa planície, ou no inóspito planalto, antes da grande cidade, verdadeiramente a única grande cidade que conhecemos durante anos.
A chegada de noite fria (era sempre Carnaval) à praça de Espanha, a curva para entrar na Gran Via, rua acima o deslumbre dos saloios pelo néon espanhol dos edifícios da avenida (era uma luz especial, diferente da dos filmes americanos, mas o mais próximo que conhecíamos de uma grande urbe) nariz esborrachado nos vidros laterais das nossas cascas de noz mas que, apesar de tudo, se distinguiam entre um enorme rebanho de SEAT (Espanha, país de uma industria de mercado interno).


Depois a chegada desordenada ao hotel Gran Via, no coração da urbe, na esquina da Calle Montera, a difícil operação de estacionar os automóveis nos minúsculos parques de estacionamento das ruas que circundavam a grande rua, o jantar no self-service, o cheiro a metropolitano, e hoje, dei por mim outra vez a olhar para dentro do Hotel Trypp (que é como ele se chama hoje) à procura do self-service, que agora se chama Berska, ou do café de esquina que hoje se chama Mc´Donalds e estava lá tudo, a recolha dos talheres, as mesas embutidas com uma cobertura de um plástico que parecia madeira, mas não era, porque em Espanha tudo tinha de ser massificado, funcional e pouco refinado, e uma tremenda excitação de todos nós, os putos, porque estávamos no estrangeiro, tínhamos feito uma grande viagem e cheirava a cidade.


Pronto, e acabei por me lembrar que já passou quase uma geração, e que já não somos os mesmos, os que chegaram e os que partiram e que nós próprios, já vivemos uma vida sempre a voar, sempre cheios de pressa para qualquer lugar, tão esquecida que estava aquela época dos rituais em que os momento eram espaçados e vividos com memória.
Em poucos lugares vejo o meu passado de puto de forma tão cristalina, tão real, tão como se fosse ontem.
Mas acontece sempre que subo a Gran Via do Callao para a Calle Montera.
Quarenta anos depois, o meu puto liga-me (passeava eu na Gran Via outra vez) a dizer-me que vai emigrar, para Madrid talvez, para Londres se calhar e achei “força puto” mas com a súbita consciência de o quarto do puto está cada vez mais vazio.


A subir do Callao para a Montera.
Hoje, sexta-feira dia 13, e enganei-me na reserva do dia do voo de regresso a casa, fiquei com o cartão de débito sequestrado na caixa automática de um Banco Espanhol, e confrontei-me, cheio de vergonha e horror, com as mãos impolutas de uma guarda de raio X a vasculhar as minhas meias e cuecas sujas, espalhadas à vista de todo o aeroporto, à procura de uma tesoura que a menina da máquina jurou que estava dentro da mala (até virou a máquina para mim) e eu, horrorizado e inocente jurava que não, e afinal não havia tesoura nenhuma, ela fixou a imagem errada e alguém passou com uma tesoura das unhas para um outro lado qualquer!

A caminho da porta de embarque dei de caras com o D.Quixote e pensei “Cruzes”

domingo, 8 de março de 2015

Mudanças (ou a ultima visão de futuro da semana)

As previsões do futuro representam  autos de fé recorrentes, uma visão feliz do que gostaríamos de poder mudar, mas não muda assim tanto.
E quando é proclamada mais uma religiosa profecia de futuro, sempre inspirada nos dez mandamentos, jamais deixo de pensar no senhor Spock
Mesmo hoje, para aí trinta anos depois e quando finalmente me começo a convencer que, nesse futuro, já estaremos todos mortos, e portanto o futuro está a deixar progressivamente de nos pertencer
Vejo-me a contar os anos que teria  em 2075, o ano em que desaparecerá por completo o buraco do ozono (dizem eles) e desanimo.
E lembro-me do filme Jonas que terá vinte e cinco anos no ano 2000, que hoje já terá quarenta.
Conformo-me com as minhas pequenas mudanças diárias, rejeito a nostalgia dos espaços abandonados (apesar do preto e branco) e encaro de frente os símbolos da última visão do futuro, conhecida esta semana!

Visão 1 - As mudanças serão cada vez mais rápidas


Visão 2 -Vamos viver mais tempo (alguns e não o suficiente)


Visão 3 -O trabalho será mais independente e global


Visão 4 - As impressoras 3D que nos vão simplificar a vida


Visão 5 - Todos os habitantes do mundo tenderão a ficar interligados, criando um mercado global


Visão 6 - Aumentará a vigilância dos cidadãos sobre governos e empresas


Visão 7 -As ameaças terroristas passarão para o mundo cibernético


Visão 8 - O dinheiro digital vai ser a norma no comércio internacional


Visão 9 - O lucro vai deixar de ser o único objetivo das empresas-a sustentabilidade é um novo factor de competitividade 


Visão 10 - A adaptação às mudanças climáticas ditará o futuro das sociedades e das nações